





Arqueiro carioca carioca





orelha
Demorei a me tornar leitor, mas teve um dia que não tive como escapar e pronto: fui fisgado pelo virar da página. Hoje gosto de ler... por isso este espaço: compartilhar sabores de ler. O que eu li e gostei, quero compartilhar. Nem todas as leituras indicadas serão minhas, esse é um espaço democrático construido por amigos.

Depois de cobrir a Casa Branca como repórter e ser, por algum tempo, o âncora do Jornal da Noite, da rede americana CBA, Crawford Sloane tornara-se uma instituição nacional, um autêntico representante da elite da mídia. Sua vida transcorria em companhia da mulher e do filho Nick. Um dia, no entanto, essa tranquilidade sofre uma reviravolta... Um seqüestro atinge os bastidores da televisão. Sua mulher, seu filho e seu pai são levados pelo grupo terrorista Sendero Luminoso. O resgate: colocar o tempo de veiculação de notícias a serviço da causa dos sequestradores. Enredo emocionante e envolvente, em que repórteres investigativos entram em campo. Para quem gosta de aventura policial, esse é o livro!

A trama foi criada com a nítida intenção de homenagear as pessoas humildes, simples e puras. Já na epígrafe da narrativa, 'Todo aquele, pois, que se fizer pequeno como este menino, este será o maior no reino dos céus.'. nota-se a vontade de elevar os puros, os inocentes e os ingênuos. Na obra, Viramundo vive uma sequência de peripécias acontecidas no Estado de Minas Gerais, contracenando com personagens dos mais variados matizes e comportando-se sempre como o bem-intencionado, o puro, o ingênuo submetido às artimanhas e maldades de um mundo que ainda não está de todo resolvido. Andarilho, louco, despossuído, vagabundo, idealista. Marginal em uma sociedade que não entende e em que não se enquadra, o Viramundo instaura um sentimento de ternura e de pena por todos aqueles que, em sua simplicidade, sofrem o descaso, a ironia, a opressão e a prepotência.

Chega de saudade reconstitui a vida boêmia e cultural carioca dos tempos da Bossa Nova - boate por boate, tiete por tiete, história por história. Para compor este fascinante mosaico envolvendo música e comportamento, Ruy Castro ouviu dezenas de seus participantes.
O resultado é uma narrativa que se lê como um romance, cheia de paixões e traições, amores e desamores, lances cômicos e trágicos - protagonizados por João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Newton Mendonça, Nara Leão, Carlinhos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Maysa, Johnny Alf, SylvinhaTelles, Elis Regina e pela legião de jovens que eles seduziram com seu charme e suas canções - para sempre.

O livro é contado por meio dos diários, cartas e fragmentos de reportagens, mostrando o ponto de vista de diferentes personagens da história. Assim, não existeum único narrador. A ausência de um narrador onipresente, inclusive, nos proporciona uma sensação de que apesar de ter várias fontes, o leitor fica sem saber sobre tudo da história, a não ser o que cada personagem sabe sobre ela. O livro tem um tom extremamente sombrio, com passagens horripilantes como a do manicômio que o Dr. Seward trabalha. No livro o personagem título é uma incógnita, não demonstrando amor verdadeiro por ninguém.

Narrado em terceira pessoa, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres nos fornece pistas de como vivenciar a idéia de amor. Na obra, Clarice Lispector parte do discurso mítico amoroso mais banal para operar uma reestruturação. O caminho escolhido é o da paródia. Os dois títulos do livro, aproximados pela conjunção, anunciam a tensão entre duas possibilidades: repetir ou inventar. A evolução da personagem feminina desse romance é modelada pela transformação do discurso que, iniciado na intencional duplicação do lugar-comum, finge no decorrer da história ganhar outros sentidos. Sugere possibilidade alternativa de ser vivida uma relação amorosa. Ao longo da escrita, ocorre algo como uma purificação de tudo aquilo em que a literatura de massa está viciada ao tratar do tema.

A obra “Amar se aprende amando”, é uma coletânea de poesias de Carlos Drummond de Andrade reunidas em um único local. Publicada em 2001, foi preparada por Ivan Junqueira, com diversos textos que o poeta escreveu entre os anos 1960 e 1980. Os poemas que fazem parte deste livro, por vezes, parecem circunstancia. Muitas vezes parecem crônicas, inspiradas no cotidiano.

Narrado em terceira pessoa, e em retrospectivas, a ação da obra acontece em Leiria, interior de Portugal, onde é abrangido principalmente o ambiente de igreja, sacristia e casa de beatas. O autor ataca violentamente os vícios da sociedade da época e denuncia a hipocrisia burguesa e os abusos do clero. Não há personagens livres da crítica ferina de Eça de Queirós, tanto no meio eclesiástico quanto no círculo de amizades e devotas que rodeia os padres. Quase todos os personagens são apresentados de forma sarcástica, irônica e crítica, sendo raras as exceções. Paralelamente ao tema central, outros percorrem a obra como a contradição que existe entre o que os padres pregam e o que fazem de verdade. Outra denúncia que se faz, de ordem sócio-econômica, é a contraposição da pobreza à vida abastada dos clérigos. Mas a maledicência, a bisbilhotice, a futilidade, a superficialidade, o vazio interior da pessoas, o desejo do poder através da religião, o emprego da religião como força política e a crítica ao culto da aparência e da convenção também se fazem presente nesta obra de Eça de Queirós.

Lídia Jorge pode ser considerada transgressora quando dá a palavra aos marginais da História Portuguesa, protagonizada por homens, e quando põe em causa a visão histórica tradicional da guerra colonial portuguesa na obra A Costa dos Murmúrios. O leitor vai tomar conhecimento da guerra a partir do olhar periférico e subalterno de uma mulher que não a viveu diretamente, mas que tem dela idéias bem específicas. Hibridez narrativa, duplicidade, ambiguidade são inerentes ao relato que tenta desmisticar os fatos ocorridos em Moçambique.

Estórias abensonhadas contém, em suas inúmeras narrativas curtas, o caráter transitório e incerto — e igualmente reflexivo e esperançoso — muito comum em escritos produzidos após um conflito. Pelas deliciosas narrativas escritas por Mia Couto o que fica patente é a deliciosa pluralidade do povo moçambicano. É a mistura de credos e línguas e lendas e sonhos que torna a atmosfera do país, vista através do olhar sensível de Mia Couto, e a sua materialização em livro, uma composição tão única e tão bela.

Pondé evoca Nelson Rodrigues para traduzir as mazelas do cotidiano. Neste livro, Luiz Felipe Pondé reúne reflexões e provocações sobre a condição humana e os diversos tipos sociais. Inspirado na obra de Nelson Rodrigues, toma como fio condutor a adúltera, o arquétipo representativo da tragédia humana. Em capítulos curtos, ácidos e bem-humorados, o autor discorre não apenas sobre o cotidiano, mas também - e principalmente - sobre aquilo que escorre pelo ralo. O cotidiano do qual fala Nelson Rodrigues, do qual não queremos saber. Aquele que colocamos embaixo do tapete, ou no quartinho dos fundos. Nesse cenário, ninguém escapa. Nem o leitor.


